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Galo de Barcelos

 

 Introdução

 

Há já muito tempo que a sua fama transpôs as fronteiras portuguesas, quer como símbolo de uma região, dum país, quer como lembrança que muitos visitantes levam consigo.

Este símbolo colorido e garrido adquiriu uma identidade própria, mas perdeu no passar dos tempos a sua origem concreta.

Associado à criação artística, existem as lendas, ou melhor, a lenda, embora narrada em diversas versões, que subjaz e está na origem da criação de tão sui generis peça do artesanato português.

Todavia, o concelho de Barcelos é muito extenso e a olaria predomina em algumas localidades, não em todo o concelho. Também não se conhece que na cidade tenha havido uma actividade cerâmica muito forte. Isto para dizer que a denominação de “Galo de Barcelos” carece de alguma verdade, enquanto criação artística como tal.

Certo é que todas as freguesias de Barcelos fazem parte do concelho, mas também todas elas têm um nome próprio, uma identidade própria, uma tradição e uma cultura que merecem ser valorizadas e estimuladas. Por isso, não devemos metonimicamente atribuir todas as coisas a uma só terra: Barcelos. Devemos sim colocar cada coisa em seu lugar e dar o seu a seu trono.

E respeitante à questão do denominado “Galo de Barcelos”, como figura artística e decorativa, convém não ter medo de identificar o seu berço e também revalorizar a gente e a terra que o criou: Galegos Santa Maria. Esta é a terra onde ainda hoje os seus artesãos dão vida a tão famosa peça do artesanato português, símbolo de uma região, símbolo de um país.

 

 O suporte da criação artística

 

Há diversos autores para quem a relação entre a Lenda do Galo de Barcelos e o Galo, criação artística, não tem qualquer nexo. Todavia, esses autores não sabem explicar o aparecimento de tão bela criação humana, como também não são capazes de fundamentar a inexistência dessa relação.

Pires de Lima não rejeita essa relação e são dele as palavras que se seguem:

“De ente todas as peças de barro, seja-me lícito destacar o arrogante galo de crista encarnada, todo ele uma sinfonia completa de côr, cuja origem talvez s encontre na interessantíssima lenda que nos conta as atribulações que sofreu um pobre romeiro a caminho de Santiago, e que um galo, mesmo assado, conseguiu salvar da forca ao fazer ouvir a sua voz forte e vibrante”. (LIMA, Fernando Pires de, A Lenda do Senhor do Galo de Barcelos e o Milagre do Enforcado, Lisboa, 1965, p. 33). Esta é sem dúvida uma relação lógica, uma vez que a lenda era bem conhecida pelo povo, e os oleiros eram dados a recriações dos símbolos invocados por elas.

Convém, no entanto, recordar a lenda: “Na vila de Barcelos tinha-se cometido um crime, e não havia meio de descobrirem o culpado. Aconteceu passar por aqui um galego que seguia a caminho de Santiago de Compostela, a fim de cumprir uma promessa. Sendo um estranho, logo o apontaram como culpado: prenderam-no e condenaram-no à morte. O homem disse que nada tinha a ver com o caso, jurou, protestou que estava inocente; de nada lhe valeram juras e protestos. A seu pedido, como último desejo de um condenado à forca, levaram-no à presença de um juiz. Este recebeu-o na sala de jantar, onde se preparava para tomar a refeição. Mais uma vez o pobre homem jurou a sua inocência, e garantiu ser tão verdade o que dizia como o galo que estava assado sobre a mesa levantasse e cantar. E, de facto, o galo assado ergue-se da travessa e cantou vibrantemente. Imediatamente “nuestro ermano” foi mandado em paz. Mas voltou, mais tarde, a Barcelos para erigir um monumento votivo em honra da Virgem e de S. Tiago”. (MAGALHÃES, António Martins, BARCELOS - Guia Turístico, Companhia Editora do Minho, Barcelos, 1987, p. 77).

Este é o suporte da criação artística e não encontro alguma razão para afirmar o contrário. Mais adiante reforçarei esta posição com outros argumentos.

Por outro lado, é imperioso desvendar alguma obscuridade que, ainda hoje, encobre a verdadeira paternidade do denominado “Galo de Barcelos”. Isto deve-se não só à inconveniência de um reconhecimento, como também às injustificadas reclamações dessa paternidade por pretensiosas pessoas que buscam galardões com a obra alheia.

É no encalço da verdade que agora caminhamos.

 

 O Galo: a origem e os criadores

 

“Quem quer que visite Portugal é confrontado, desde a sua chegada ao Aeroporto de Lisboa, com o galozinho pintalgado que se vende em diversos tamanhos como recordação de viagem. Este pequeno galo é o testemunho duma longa tradição que nos transporta a Barcelos e à história cativante do enforcado salvo miraculosamente por Santiago de Compostela, lenda que, durante a Idade Média conquistou a Europa Ocidental e Meridional” (MEYER, Maurits de, “La légende du pendu miraculeusement) sauvé par Saint Jacques de Compostelle et le témoignage du coq rôti”, in Revista de Etnografia, vol. XV, tomo 1, Porto, Outubro de 1970). O relato deste etnógrafo belga ajuda a reforçar a ideia de que é a lenda que origina a criação do galo de barro, que se encontra em qualquer parte de Portugal e espalhado pelo mundo.

Já foi dito que o berço desta criação foi e continua a ser a freguesia de Galegos Santa Maria.

Mas quem foi o seu criador?

Para esta questão há só uma resposta: a pessoa que fez o primeiro “Galo de Barcelos” em barro foi Domingos Côto. Esta é a verdade que muitos procuram encobrir. E não é sem fundamentos que aqui é apresentada.

“Barcelos - a terra dos galos - assim é conhecida em muitas paragens esta parcela do Minho.

Com efeito, esta figura típica da louça de Barcelos, de fundo escuro, crista vermelha, pintalgada de corações (o mais vulgar), teve o seu nascimento em Galegos Santa Maria, pela mão do Oleiro Domingos Côto, na década de trinta. Primeiramente o galo era feito à mão, começou depois a ser fabricado à roda e em série, de todos os tamanhos, em quantidades industriais. Hoje corre mundo como embaixador de Portugal. E não tem representado mal o seu país.” (MAGALHÂES, António Martins, Barcelos - Guia Turístico, Companhia Editora do Minho, Barcelos, 1987, p. 41).

Não sei por que razão esta verdade nunca foi encarada frontalmente e assumida com clareza pelas entidades competentes. Seriam tantas as incertezas que levavam a evitá-la? Ou pelo contrário, será o não querer compartilhar a verdade a que todos têm direito?

Mas outros argumentos se podem citar. No livro intitulado Barcelos no Passado e no Presente, de Ernesto Amorim Magalhães, editado em Barcelos no ano de 1958, encontra-se na página 244 um pequeno texto relativo à freguesia de Galegos Santa Maria, onde se pode ler o seguinte: “E lembramo-lo já porque é na dita freguesia que se fabricam os Galos de Barcelos”. Também em artigos de jornais se podem encontrar testemunhos referentes a este assunto e que atestam aquilo que vem sendo dito.

No entanto, e procurando um vasto leque de provas impunha-se que este assunto fosse também tirado a limpo junto dos familiares de Domingos Côto. Nesse sentido procurei junto dos familiares do “pai” do Galo de Barcelos cimentar a questão em causa. Todos afirmam que foi Domingos Côto que fez o primeiro galo de barro e que o fez inspirado na lenda do Galo de Barcelos. Dos familiares desse oleiro, destaca-se um: Júlia Côta, neta de Domingos Côto, e insigne artesã. E foi dela o testemunho mais caloroso que ouvi, testemunho esse que avalizado pelo mérito  e reconhecimento público ca conceituada artesã. Assim relata ela: “Quem fez o primeiro galo de barro, que chamam Galo de Barcelos, foi o meu avô, Domingos Côto, que era pai da minha mãe, a Rosa Côta. Depois, quem continuou a fazer esses galos foi o meu pai e a minha mãe”. Mais adiante, e enquanto das suas mãos surgiam novas peças de barro, acrescenta: “eu ainda me lembro bem dos primeiros galos que o meu avô fazia. Eram feitos à roda, mas eram muito pequeninos e mal feitos. Mas o meu pai fazia galos que tinham metro e meio de altura e para os pintarmos tínhamos de estar em pé”. Quando lhe perguntei por que razão é que o avô começara a fazer os galos e donde é que lhe veio a ideia, Júlia Cota respondeu convicta sem hesitação: “Olhe! Foi a partir da Lenda do Galo que o meu avô começou a fazer galos”.

 

 Conclusão

 

A verdade é para ser dita, proclamada e defendida. E foi em abono da verdade que realizei este trabalho, para que, de uma vez por todas, se desfaçam as dúvidas e se proclame sem receio aquele que pela primeira vez fez o galo de barro. Quem foi o criador? E de onde era? Foi na busca de respostas para estas duas questões que orientei este trabalho.

Agora que está esclarecida esta questão é necessário que as entidades competentes, como Câmara Municipal, Região de Turismo, Turismo Municipal e outros agentes culturais e turísticos tomem a peito o esclarecimento e a reposição da verdade sobre tal facto. Resta agora que as mesmas entidades assumam uma postura que defenda a veracidade do tema aqui abordado. Assim, devem não a ocultar a realidade, e em todos os textos de promoção da cidade e do concelho, nos cartazes turísticos, devem salientar que a peça de baroo, o galo, que simboliza e representa uma cidade, uma região e até um país foi criada na freguesia de Galegos Santa Maria, pelas mãos do oleiro Domingos Coto.

O “Galo de Barcelos” tem como pai artístico Domingos Coto e é natural de Galegos Santa Maria.”

 A lenda do galo, númen de Barcelos

 

O celebrado “cruzeiro do galo”, presentemente exposto no Museu Arqueológico de Barcelos, ilustra-nos o mais conhecido milagre de S. Tiago, que é também o mais exemplar testemunho da protecção que o santo concedia aos seus devotos peregrinos. Este monumento este erecto no limite sul de Barcelinhos, ao lado da velha estrada que seguia para o Porto, junto do pequeno desvio que levava até à forca. Embora essa estrada fosse um dos nossos mais seguidos caminhos para Santiago de Compostela, ele está muito mais relacionado com a forca que, desde 1712, se erguia ao lado. De haste tambular, com 1,54 metros de altura, o cruzeiro tem duas grandes faces, cheias de escultura relevada. Conforme a correcta descrição que nos deixou Amaral Ribeiro, um autor oitocentista que no-lo descreveu pela primeira vez, na face “outrora virada à forca”, vemos, “lavrada em relevo, a figura de um homem pendente de uma corda bamba, amarrada ao pescoço e, por baixo, outra figura com a cabeça e com mão esquerda na atitude de suster as plantas do pés do homem que pende do laço que, tendo na mão direita um bordão com uma cabeça, denota ser Santiago. Na face oposta, tem em cima, num canto, a figura do sol e no outro a da lua; ocupa o outro uma figura que parece ser Nossa Senhora e, por baixo, outra que se assemelha a S. Bento, por ter na mão direita um cajado e na esquerda um livro aberto. O cruzeiro remata em cruz com a imagem de Cristo crucificado, esculpida em ambos os lados, mostrando-nos na sua peanha, logo acima da cabeça do justiçado, um galo e, no outro lado, um dragão tosco.”.

Iconograficamente, estes relevos não têm segredos. São tradicionais as figurações do Sol e da Lua ao lado de Cristo para significar que ele é o Senhor do Universo. A representação do dragão, junto do pé da haste de Cruz, símbolo do demónio vencido pela rendição de Cristo, é também frequente. Nossa Senhora e S. Bento são os santos mais venerados nesta área. Na face que estava virada à forca, ilustra-se o célebre milagre do peregrino enforcado, cujo corpo foi suspenso por S. Tiago e cuja inocência foi garantida pelo cantar de um galo assado que o juiz começava a trinchar para comer.

Este cruzeiro, estilisticamente popular e arcaizante, pela posição frontal dos figurantes que mostram vestes tumulares, poder-se-ia datar do séc. XVII, mas porque a forca que motivou a sua instalação foi construída em 1712, deverá ser antes considerado dos inícios do séc. XVIII. E nunca do séc. XIV como às vezes se escreve. Na lenda de Barcelos, conforme a iconografia do cruzeiro, integram-se dois distintos milagres, bem conhecidos da hagiografia medieval, os quais têm origem em difusões diferentes. O primeiro consiste na miraculosa suspensão do enforcado e o segundo no facto de um galo assado se ter levantado para cantar. O estratagema da ocultação da peça de prata na bagagem do peregrino, que completa o enredo da narrativa, é um tema de origem bíblica. Encontrámo-lo nos Génesis, na vida de José do Egipto. Conforme o estudo de Gaiffier (Études Critiques de Hagiographie, Bruxelas, 1967), o milagre da suspensão do enforcado é atribuído a cerca de trinta santos diferentes e terá acontecido em outros tantos locais. A atribuição a S. Tiago é a mais frequente e mais estendida. Neste caso, o acusado é sempre um peregrino. No Codex Calixtinus, manuscrito do séc. XII, pertencente à catedral de Compostela, já se alude a este milagre ue terá acontecido em Toulouse, França, em 1090, com um peregrino alemão que ía para Compostela.

O milagre do galo assado que se ergue para cantar, garantindo a verdade, tem uma origem mais antiga. Aparece já em relatos dos Evangelhos Apócrifos da época paleocristã.

É somente nos princípios do séc. XV que, pela primeira vez, nos aparece a notícia de um evento prodigioso semelhante ao de Barcelos, isto é, um caso onde a miraculosa suspensão do peregrino enforcado se junta à ressurreição do galo que canta perante o juiz seguro da veracidade da sua sentença. Em 1418, fazendo peregrinação a Compostela, o senhor de Caumont refere que, em Santo Domingo da Calçada (Rioja), se contava este duplo milagre, o qual teria acontecido aí. Já então dentro da catedral desta cidade se alimentavam um galo e uma galinha, brancos, como memória do acontecimento.

Será esta a versão que a Época Moderna divulgará, abundantemente, na iconografia religiosa, no teatro, nas baladas e na literatura de cordel e será também esta a que chegará a Barcelos, onde a tradição, fomentada pelo cruzeiro, no-la conservou com poucas variantes.

A lenda que o cruzeiro do “Senhor do Galo”, entretanto também chamado de “Barcelos”, nos ilustra não parou na sua capacidade de originar fenómenos culturais.

 Versão oitocentista da Lenda do Senhor do Galo

 

Devemos a Domingos J. Pereira (Nova Memória Histórica da Villa de Barcelos, ampliada, manuscrita, de 1877) a mais antiga versão, tradicional do milagre esculpido no cruzeiro do galo e que ele descreveu assim:

 

“Por aqueles sítios, à beira da estrada velha, talvez no mesmo sítio do Senhor do Galo, havia uma estalagem muito concorrida pelos viandantes que se desfaziam em elogios sobre a formosura, sem igual, da sua dona, moça gentil, cuja fama de beleza se estendia por muitas léguas, mas em desabono de quem nada havia que dizer. Fez o diabo (e quem senão ele!) que em certo dia acertou de entrar na estalagem um peregrino, por sinal galego, que, acompanhado de uma galhardo mancebo, seu filho, ia cheio de fé cumprir um voto a S. Tiago. Ver a estalajadeira ao mancebo e ficar enfeitiçada com ele, foi o momento, posto que o filho do galego não fosse acometido da mesma paixão que levou aquela até aos pontos que o leitor vai ver. Quando ela se convenceu de que os viandantes não contavam demorar-se mais que o tempo necessário para tomar algum repouso, empregou todos os recursos que lho sugeriu a sua imaginação de mulher para persuadir o peregrino da conveniência de demorar-se alguns dias. Quando conheceu que era impossível vencer a teimosia do galego em continuar seu caminho, empregou todos os esforços para conseguir do filho que ali ficasse até ao regresso do pai, e quando a obstinação desta foi seguida pela indiferença do moço, a estalajadeira formou um plano, genuinamente diabólico, que pôs em acção, logo de seguida.

Pagaram os peregrinos as despesas, despediram-se da vendeira, que longe de manifestar pesar, aparentou rosto risonho e sorriso de mau agouro e sem se demorar mais, continuaram aqueles santos varões sua piedosa jornada. Não haviam progredido muito nesta quando, num cotovelo de caminho, apareceu um bando de aguazis que dirigindo-se ao mancebo lhe disseram:

- Em nome d'El-rei, estás preso.

Atónitos, pai e filho, com dificuldade conseguiram perguntar, balbuciantes, o que significava aquilo e, por isso, calcula-se como ficariam ao ouvir qualificar o moço de ladrão e o que mais é, quando dentro da sacola lhe retiraram uns talheres de prata, corpo do delito que a estalajadeira denunciara à justiça.

O peregrino prosseguiu imperturbável a sua visita a Santiago, depois de abraçar o filho que, conduzido à cadeia, não tardou a ser condenado à pena da forca, segundo a legislação então em vigor.

Nesse dia e na mesma hora em que deveria ser executada a sentença valeu-se o galegos pai da sua peregrinação e, cheio de pesar com a notícia do que se passava, foi procurar o juiz, em ocasião que estava comendo, a fim de o convencer da inocência do filho. Desejando o magistrado que ele não o importunasse, pedindo-lhe pelo filho, declarou-lhe que para o acreditar inocente seria preciso que cantasse o galo assado que tinha na mesa e ia trinchar. Dizer isto, pôs-se de pé o galo, sacudir a salsa e começar a cantar foi um abrir e fechar de olhos.

Levantou-se o juiz aterrado, olhou o relógio, era precisamente a hora da execução. Correu, seguido pelo pai ao sítio do suplício e a grande distância um e outro viram que chegavam tarde!... O réu via-se dependurado da viga fatal... Pouco porém importava tudo isto. S. Tiago pegava no filho à vista do pai, amparando com a cabeça e mãos os pés do enforcado.

... eis a tradição, transmitida ao longo dos anos, que deu origem ao cruzeiro do Senhor do Galo.”