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História

 

Galegos é um território que antes do ano 1081 foi dividido em dois: Santa Maria, a ocidente, e S. Martinho (é o de Tours, não o de Dume), a oriente. Esse território configura-se quase como um rectângulo de seus 5 quilómetros de comprimento, no sentido leste-oeste e uns 3 de largura, no sentido norte-sul.

 

Não se sabe porquê, Galegos. Só que este nome é recente (o documento de 1081 diz Villa Gallegus) e também há freguesiaschamadas Galegos na própria Galiza onde todos deviam ser «galegos» («Voz do Minho» de 8/12/1973). Por outro lado, Galegos está dividida em partes - lugares e sítios - cujos nomes são mais antigos que o nome Galegos. Por exemplo: Paranhos, Valdomir, Pena, Penelas e Pena Grande, Cacavelos, Fraião, Chouso, Reborido.

 

Vizinhas: a norte - Roriz; a nascente - Areias e Lama; a poente - Lijó; entre Manhente e Lijó, S. Veríssimo e Arcozelo. Só tratamos de Galegos ocidental ou Santa Maria

 

Cursos de água: a sul, ainda de Manhente, o «Rio Grande» ou Cávado - que já foi Celadus ou Katavo; a norte, vindo de Alheira, por Roriz e Galegos, o «Rio das Caldas» (as do Eirôgo) que vai juntar-se ao que vem de Lijó, atravessa Arcozelo e vai meter-se no Cávado. Antigamente aquele ribeiro separava a Terra de Prado da Terra de Barcelos, como se vê pelo Foral de Prado, de 1260 (D. Afonso III): «... julgado de Prado... parte por foz de Pontelias (rio das Pontes, pontinhas) e daí pela ponte de Arcozelo e pela ponte de Bezeiros e daí à Mamoa (anta) de Cima de Roriz e pelo Ribeiro de Real (é o que vai dar a Galegos) e daí a S. Lourenço» (já existia a capela!). Ver A Vila de Prado, pág. 25.

 

A Pré-História (antes dos documentos)

 

Nem da tradição nem por vestígios materiais consta que Galegos fosse habitada desde muito antes de Jesus Cristo, seja, há mais de 2000 anos. Todavia, um Boletim do Grupo Alcaides de Faria noticia que há uns 100 anos havia em Galegos o lugar de Mamoa. Roriz, como se viu do Foral de Prado, tinha em 1260 a Mamoa (de Cima). Ora as mamoas têm milhares de anos.

A Toponímia mostra contudo antiguidade: Pena - de Pen, palavra celta, a indicar pedra, como Penha (Senhora da); ora os Celtas andaram pelas Espanhas - e deixaram os Castros - mais de 600 anos antes de Cristo; Chouso vem de Clausum (fechado) e é Latim; ora os que falam Latim foram os invasores vindos de Roma (diremos, hoje, de Itália) que venceram os de cá pelos tempos de Jesus Cristo. Só que os Romanos não iam romper terras «a bravo»: mais fácil, e da lei, era tomarem aos de cá as já cultivadas. Daí Chouso e outros nomes.

Anotemos que há em Braga no museu do Seminário de S. Tiago um Capitel que pertenceu a uma antiga igreja de Galegos. Pode ver Avelino Costa, obra «D. Pedro».É de estilo anterior ao da igreja de Manhente - é pré-românico.

Barcelos, no tempo de D. Afonso Henriques (por 1140) era pouco mais do que uma quinta do rei (ver Mancelos - Resenha - pág. 16).

 

A invasão dos Suevos (409)

 

É um povo germânico, digamos, alemão, que veio para estas terras pelo ano 409 depois de Cristo. Viviam cá os indígenas misturados - que seriam iberos, lígures, gregos (casados) com os celtas e depois com os Romanos, dando os Luso-Romanos. Agora nova mistura com os Suevos. Deve ser por isso que temos cabelos loiros. Fizeram estragos, porque não eram cristãos  os de cá, sim, ao que parece.

 

A invasão dos Visigodos

 

Estes eram dos chamados Godos que viveram pelo sul da Russia actual e foram vindo até cá chegarem. Quiseram fazer de toda a Península Hispânica um império: havia que lutar para vencer os Suevos primeiro. Conseguiram-no uma meia duzia de anos depois de S. Martinho ser enterrado (no Mosteiro de Dume). Como eram herejes - arianos (Jesus Cristo seria quando muito um Deus de 2ª, por inferior ao Pai), os vencidos, católicos, tiveram bastante que sofrer às mãos deles. Por fim, rejeitaram a heresia e toda a Hespanha - Galegos também, claro - se tornou império católico.

 

A invasão dos Árabes (Mouros - 711)

 

As Espanhas eram no tempo de S. Frutuoso (homem de sangue real e portanto visigodo, que à morte dos pais deu os bens e se fez eremita, vindo mais tarde a ser, tal como S. Martinho, bispo de Dume e depois, arcebispo de Braga, em 656) um reino enorme. Caiu por traição de alguns visigodos que chamaram os Mouros de de Marrocos em auxílio do partido deles. E os Mouros... vieram e não saíram mais até à reconquista. Foi uma guerra semelhante às que depois fizemos contra Castelhanos e Franceses: expulsar o invasor. Faltavam soldados porque os cristãos eram poucos. Valeu que depressa vieram novas gerações tomar o lugar dos que haviam morrido. Alguns voltaram às terras que deles foram; outros, nunca mais e terras assim deixadas a mato, ocupava-as quem podia com ordem do rei visigodo - com a capital primeiro em Oviedo e depois em Leão.

E Galegos? Se lá não tivesse ficado gente, não se podiam ter conservado os antiquíssimos nomes de lugares: Chouso, Penelas, etc. Os que vieram ou eram os mesmos ou novos (outros). E se novos, dariam novos nomes aos lugares. Porque haviam de manter os velhos nomes? Os de galegos ficaram nas suas hortas.

 

Nova terra, novo batismo

 

Vimos que em 1081 se chamou a Galegos «Villa». Mas villa era o nome que o Romano rico dava às suas propriedades (herdade e palácio). E Galegos - o território - foi villa de algum X romano? Não sabemos. Se foi, que nome lhe daria o Romano? Mas se não foi de Romano, porque é que lhe chamam villa em 1081? Sobre Villa, ver Alberto Sampaio e M. Oliveira («Paróquias Rurais»).

A população cristã não cabia para lá de Oviedo e Leão. Emigraram para sul. De uma freguesia iriam emigrando novos casais para as terras vagas de outra. Mas pode ser que algum conquistador trouxesse um grupo de fam+ilias para o território de Galegos e aí lho repartisse pagando elas um forro. Isso exigia que o terreno já fosse dele antes, ou o conquistasse, anos antes de 1081. Mas se conquistado, havia de ter seu nome. Era Galegos? Quem deu este nome? O conquistador? Ou os que vieram fabricar ali a terra? Mas eram mesmo da galiza? De que parte? De qual terra vieram? Podem não ser nada da Galiza e ter sido os que ficaram ou os de fora (lijó, por exemplo) quem alcunhasse as novas famílias chamando-lhes «os galegos» e o nome pegasse. Porque os de Manhente devem ter vindo também de fora - de perto de Burgos. seja como for, a palavra é nova e o batismo é novo, o que significa que a nossa terra foi re-batizada se outro nome teve, ou recebeu aquele por ser território demarcado de novo. A sede da vila romana podia ter sido acima de S. Lourenço ou em Roriz (onde em 1220 se fala em paço). Note-se que o batismo se fez antes de 1081 porque, por essa data, já o território, que foi uno, se subdividira em 2 paróquias, a oriental e a ocidental, como dito atrás. Galegos era, por esta altura a paróquia nº 424 num Censual de Braga.

 

O documento do ano 1081

 

«A Voz do Minho» de 27/1/1973. Vem referido pela Enciclopédia Luso-Brasileira (palavra Galegos) e por Machado no Dicionário Etimológico. Foi publicado por Herculano na colecção P. M. H. - Diplomata e Chartae - pág. 357.

Traduzido, reza o texto: «Eu Gundisalvo Luz dou a ti... Unisco, da família Sousa Dias, como dote: as Vilas referidas entre Lima  e Cávado com suas pertenças...» Que pertenças? Bens, mancípios e mancípias, que são um tal Menendo com os filhos e netos (não fala na mulher...), Belita, Guiscalco, Grado, Adelfo, etc.

Repare nos nomes: só Menendo - que em 1220 aparece reduzido a Mem - tem forma alatinada. Os outros são indigenas ou visigodos. A doação é de 37 povoações, mas osmancípios (chefes como o Belita, etc) só são 20.

Questão: Quirás e Galegos foram do mesmo dono? Foi ele o mesmo povoador?Deu a ambas o mesmo pároco? Em 1081, Quirás já estaria anexa a Galegos como estava em 1536? Ver Dr. Teotónio: a Casa de Azevedo (Lama) e «Voz do Minho» de 22/7/1972: «Martim Lopo de Azevedo venceu a igreja de... Galegos com sua anexa». É um padroado.

Este é o mais antigo documento, que se conhece, referente à freguesia. É do tempo em que a diocese de Braga foi restaurada (teve o seu novo bispo que foi D. Pedro) porque até à restauração os bispos de Braga, viveram perto das ovelhas: em Lugo! Até acumularam, o que deu enormes confusões e disputas. A seguir, tudo em silêncio durante 139 anos, até 1220 (Nota: Na carta do Couto de Manhente - 1128 - refere-se Penelas).

Porque o rei de então, D. Afonso II, se havia convencido que os nobres e as igrejas estavam a ficar com os bens da coroa sem darem cavaco, e ele a ver, ouviram os Inquiridores várias testemunhas, de Galegos, inclusive o abade (abbas), chamado Martinho Godiiz. Testemunhas: Pedro (filho de) Pedro, Pedro Sueriz, Pedro e João, Pedro de Gunsalves, João de Pelágio, Filho Bom, João de Sueiro, Fernandesd e Gunsalves, Pedro Pequeno e Soeiro de Pelágio.

O povo já não falava Latim, mas o escriba alatinou. Não soube alatinar Pequeno. Quase todos são Pedros. O apelido Soeiro desapareceu, mas há ainda Fernandes e Gonçalves (desde há 700 anos!).

 

A Igreja pagava ao Rei (1220)

 

a) de uma propriedade: 13 varas de linho (2 bragais menos 1/7), mais um soldo em vez de 1 lombo de porco (spatula) e 8 denários em vez de 1 cordeiro (carneirinho, borrego). Leia spátula.

b) de outra: 1 côvado mais 1/3 e 3 soldos;

c) de outra ainda: parte de 1 côvado e 3 mealas (meio dinheiro), moeda criada por D. Afonso Henriques. Ver Oliveira Marques, 83.

Nota: o imposto é pago em géneros (linho); no mais está substituido por moeda. Valores ou custos: 1 lombo - 1 soldo; 1 borrego - 8 dinheiros.

 

Fraião e Cacavelos (lugares - 1220)

 

Fraião - Froyan - nome de homem. Ver Xavir Fernandes - Topónimos.

Cacavelos (não carcavelos): não existe e segundo M. Pidal é nome de origem latina. Sobre ambos os lugares caía o imposto de dar dormida e comida ao rei ou seu mordomo (quando de passagem por Galegos).

 

Bens da Igreja (1220)

 

Eram eles searas (senárias) e 8,5 casais. Searas: campos cultivados directamente. Casais - terras dadas em foro (renda perpétua ou por vidas), sendo cada casal normalmente o terreno suficiente por ali manter uma família média; terra junta (quinta) ou dispersa em leiras. Em S. Verissímo ainda há pouco havia «Zé do casal».

O Inquérito não ficou bem... e repetiu-se 38 anos depois.

 

Galegos em 1258

 

Pelo inquérito em Galegos em 1258, tempo do rei D. Afonso III, também publicado por Herculano no Portugaliae Monumenta Historica se vê: 1º) em vez de abade, aparece o capelão Estevão Joanes; 2º) aparecem dois nobres a testemunhar: D. Durando e D. Juliano (Julião); 3º) a Igreja era mais rica por ter comprado parte da herança de um Menendo (ou Mem) Aires (Ayras); 4º) a Igreja não pagava, pela parte comprada, imposto porque os bens da Igreja eram disso isentos (e ainda o são pela Concordata). Por causa destas riquezas, os homens da Igreja caíram em muitos abusos, de tal forma que em Roma se falsificavam bulas atribuindo-as ao Papa, sem dele serem, e em Portugal, os reis tiveram - a bem do Povo - de mandar aos bispos que castigassem certos padres, monges, etc.

 

População de Galegos no século XIII

 

Já vimos que havia 8,5 casais da Igreja. Manhente (mosteiro) tinha lá 5,5 casais, Vilar 3 e a Várzea, o que dá 18 casais ou 18 proprietários. A 5 pessoas cada, temos 90. Se considerarmos que os não proprietários como pedreiros, jornaleiros, criados, etc fossem outros tantos, temos ali, pelo menos, 180 pessoas. E não é que em 1758 o abade diz que as pessoas eram só 221?! Muita peste houve ou emigração. Armando de Castro estuda estes problemas na sua obra «A Evolução Económica de Portugal». O estudo aproundado sobre o «Couto de Manhente» e da «Honra de Azevedo» é absolutamente necessário para esclarecer o que foi a vida de Galegos e vizinhas.

 

Galegos pelo ano de 1369

 

Deste ano há um Censual de Braga, referido pelo Dr. Av. Costa em «D. Pedro» (ver «A Voz do Minho» de 31/3/1973). Galegos Pagava à Sé: 1 bragal, que valia 40 soldos; mas por outro bragal (mais antigo?) e Calendário (a folhinha), só 11 soldos; «novos», «mantas» 1/3 e «monturas»; das colheitas (searas - calculadas em 6 moios, 360 alqueires ou rasas) a dízima, décima ou 10%, no valor de 4 maravedis. Por cada visitação - já as havia no tempo de S. Martinho, o que não há é o registo delas - 5 libras (sobre moedas antigas e valores pode ver-se T. Aragão).

Repare-se que por esta época o arcebispo de Braga era um francês, houve conflitos em Braga com o célebre Vasco Domingues, deu-se o caso de D. Inês de Castro, já tinhamos Universidade em Lisboa e havia 2 Papas, ambos a dizerem-se verdadeiros. Quando a Santa Sé, aqui, não caiu, nunca mais! Mas só por milagre ela não caiu. Os cónegos de Braga até apoiaram o anti-papa!

Repare que estamos pouco antes do tempo de Aljubarrota (1385).

 

Galegos por 1450

 

É pelo menos desta altura a devoção a Santo Amaro. repare que em Beja há a capela de Santo Amaro - monumento nacional. Por 1450 já não havia beneditinos em Manhente nem em Vilar nem na Várzea. Só os Manhente podia ter introduzido a devoção ao beneditino Amaro ou Mauro. Logo, foi antes de 1450 (Ver «A Voz do Minho» de 13/10/1973 e o Dr. Teotónio - Barcelos Aquém). A Crestomatia Arcaica de José J. Nunes Trás parte do celebrado Conto do Amaro, escrito no séc. XIV (1300 - 1399), sob o título «O Paraíso Terreal».

Da Senhora do Bom Sucesso: desde quando se venera em Galegos e na capela de Santo Amaro? Galegos tem hino próprio como S. Amaro tem o dele. Falta escrever as letras e as músicas desses hinos.

Repare que foi pouco antes de 1450 que começámos os Descobrimentos.

Damos agora novo salto para 1515.

 

Galegos pelo ano de 1515

 

Cálculos feitos, era então abade um Miguel I de Azevedo que teve filhos vários, bastardos. (Ver «Voz do Minho» de 21/4/1973 e 9/11/1975). Note que houve párocos só de título - um até foi mulher! Tinha, desse caso, de nomear alguém com ordens para o substituir. Mas Miguel I parece que era de facto padre, só que, naquela altura, não se estranhava um padre ter filhos. Casou uma filha para a rica Casa da Bagoeira. Azevedos da Lama e Pinheiros de Barcelos (tiveram vários bispos) ligaram-se por casamentos (por causa da praga - e mania - dos morgadios). Dar o «terço» a um filho é resto de morgadio.

 

Galegos pelo ano de 1565

 

Nesta época, que foi de muito esplendor nacional, por causa do ouro da Guiné, especiarias de Goa e madeira do Brasil, quase tudo emigrou para ír enriquecer. Morreram aos milhares no mar e nas guerras. Começaram a fezer-se registos paroquiais: de casamentos, etc, porque alguns fazendo-se solteiros, casavam-se duas vezes com prejuízo das noivas. A abade era outro Azevedo, Miguel II, sobrinho-neto do Miguel I. Há-de ser desta época o 1º Tombo, cadastro dos bens da Igreja de Galegos. Nesta época - e pelo menos desdde 1536 - o padroeiro de Galegos era a Casa de Azevedo: direito de escolher o pároco. Sempre que pôde nomeou para lá o seu filho segundo. Galegos era rica e bom emprego. Os reis faziam o mesmo, até com os bispados, para terem bispos obedientes, do que resultou a miséria de muitos párocos e, em alguma parte, a decadência nacional que Antero veio a criticar em 1871 em «Causas da Decadência dos Povos Peninculares». Mas Antero aliou-se aí a judeus e macons, todos inimigos do cristianismo. No fim matou-se.

De Galegos não sabemos quase nada, mas é possível que as Confrarias do Rosário e do Santíssimo tenham sido fundadas por esta época - como reacção contra os protestantes ingleses e alemães (Lutero). O arcebispo era o dominicano, valente, beato Frei Bartolomeu dos Mártires, acusado por Camilo de traidor à pátria. Mas Camilo teve de engolir o que disse. É também a época do famoso Camões. Segue-se novo salto até 1663: reflexos aqui do dom+inio espanhol, ou da independência em 1640, não co conhecemos.

 

Galegos por 1663

 

Nesta data se iniciou um Livro de Visitações onde um cónego da Sé, por delegação do arcebispo, escrevia reparos, dava ordens e impunha multas aos fregueses de Galegos. O abade tinha de ler tudo isso em 3 domingos, à missa. Já vimos as 5 libras em 1369 Galegos pertencia à zona de visitas chamada Entre Homem e Cávado e Vale de Tamel. (Sobre o Cabido pode ver A. Luís Vaz - O Cabido de Braga, de 1071 a 1971). A principio a visitação era anual; depois trienal e até mais espaçada. Acabaram de todo quando o cabido foi perdendo os bens. Não havia cónego que não fosse filho de gente rica. (Pode ver a obra Dignitários da Sé de Braga dos séculos XVII e XVIII de Artur M. A. P. G. S. Távora).

O abade Maçedo (com cedilha e era correcto) escreveu uma Tábua ou lista das pessoas cujos bens tinham encargo pio, para de algum modo substituir o Tombo.

Esses bens eram: Vinha grande em Portela, Eido, Campo do Rio, Cachada, terra da Poça do Carregal, Pedreira de Cima, Cortelho do Trigo, etc. Vejam como os nomes dos lugares se conservam. Pessoas nomeadas: Pedro F. Castro, D. Lopes, Maria Gonçalves, F. Lomba, João Lourenço, João Francisco (lugar de Casa Nova). Diz as medidas que a terra levava (1 alqueire, etc) e ainda: 1 missa por homem, 1 missa por mulher, 6 missas por sacerdote, 1 ofício de 5 padres por ano, etc.

Vemos muito sobrecarregado um Francisco Lourenço (Aldeia): obrigado às 3 missas de Natal, outra em 15 de Agosto, 1 alqueire de pão para o Subsino (confraria), 1 quartilho de azeite para o Santíssimo nome de Deus. Outros: Casa de Azevedo, 2 missas por ano por alma do ex-abade de Manuel de Azevedo e sua mãe: Casa junto ao passal.

Santo Amaro: a capela anterior à actual será uma construção de 1662, data inscrita em pedra sobre a porta do lado sul.

 

De 1663 a 1732

 

Estava-se a 23 anos depois da independência; o arcebispo de Braga foi preso com outros por afectos a Castela; D. João IV e por morte dele, a vi+uva regente, não tinham mãos a medir à procura de dinheiro para a guerra - porque Espanha insistia (ver o Cabido de Braga, pág. 198).

Do Livro das Visitações recolhem-se, entre outras, as informações seguintes (ver «A Voz do Minho de 9/9/1972 e 30/6/1973):

- 1664 - Já existia o altar «da Senhora» (Rosário). A imagem o mostra.

- 1666 - Um pasteleiro e João F. da Pena «ponham» pedras na testada do Lameiro.

- 1671 - Limpem o caminho de Fonte de Baixo; Domingos Martins ponha uma cancela na sua terra (Pena) e F. Miranda, outra, na cangosta de Regoufe (compare com Patoufe - de Wulf, língua alemã, lobo - ver X. Fernandes - Topónimos).

- 1675 - A imagem da Padroeira estava sobre o Calvário (os Passos?).

- 1677 - Manda pôr coleiras no torreão; repicam o sino do chão.

- 1677 - Mande pôr coleiras no torreão; repicam o sino no chão; há danças desonestas dentro e fora da igreja.

- 1679 - Consertem Reborido.

- 1681 - Acompanham os defuntos com gritarias e de chapéus nas cabeças.

- 1688 - Os da Sª do Rosário gastam em luxos; se os querem paguem das bolsas deles.

- 1689 - Deixam ír as raparigas, à noite, com os namorados aos moinhos...

- 1717 - Não cumprem as Pastorais sobre seões e espadeladas; o abade ou as faz cumprir ou ficará suspenso.

- 1724 - Consertem os telhados.

- 1726 - Expulsem de cá as viúvas que venham de fora. Em 1711, o chão da igreja era em lages de pedra.

 

1732 - Primeiros estatutos do Santíssimo

 

Os estatutos do Santíssimo são de 15/5/1732 - têm 268 anos. Estão em um livro manuscrito onde, após os primeiros estatutos, foram lavradas sucessivas reformas deles - que foram várias. Dos primeiros estatutos há também um caderno à parte, manuscrito, com desenhos. Entre os capítulos do livro e do caderno há algumas diferenças.

Não dizem quem a fundou: mandam só rezar por intenção do fundador um Reponso cantado por ano. Referem o abade Francisco Vaz de Figueiredo mandando que se reze por ele uma missa cada ano. É de presumir que o fundador foi sacerdote - por isso se rezaria «Deus qui inter Apostolicos Sacerdotes», mas não o Vaz de Figueiredo.

 

Galegos de 1740 a 1758

 

Pode ver em «A Voz do Minho» de 9/9/1972.

- 1735 - O arcebispo clamava contra luxos, nos padres, como estes: grande cabeleira, risca no cabelo, folhos na roupa, sapatos especiais, meias brancas, etc.

- 1740 - Acha o Arco Cruzeiro pequeno e ser curta a Capela-mor.

- 1745 - Eetranha que nada fizessem do mandado em 1740 (arco e capela) e refere que quiz ver o Tombo mas não lhe disseram que andava por Braga. O Sr. Padre Benjamim Salgado acaba de me remeter um trabalho que fez sobre o Tombo de Antas (Famalicão) elaborado em 1555. Repara o Visitador que viu duas capelas em Galegos - só duas - S. João e Santo Amaro e lhe disseram que a de S. João tinha bens (Confraria) com frutos que revertiam para a igreja paroquial. Mas não viu prova documental.

- 1746 - O Visitador, Dr. Medina, dá ordem de levarem o Arco Cruzeiro para diante (fazer a igreja mais comprida) e pôr tribuna na Capela-mor. Era por causa das Endoenças (ver P. Acácio).

- 1750 - Testamento de Francisca Antónia a dizer que José Ribeiro (dos Pires? Nos primeiros estatutos do Santíssimo fala-se de um André Pires. Como são velhos os nomes!) lhe devia 2250 réis e parte de ¼ de ouro que ela pagou por ele - de chumbo - no Porto. Será que ele foi morrer ao Porto?

 

1758 - Data da Memória Paroquial

 

Trata-se de um Relatório manuscrito que cada pároco teve de mandar ao Rei - era D. José, cujo chefe de Governo foi Pombal - em resposta a perguntas feitas pelo Governo logo após o gravíssimo terramoto de Lisboa, de 1755. esta na Torre do Tombo, num livro formado com ele e outros - ordem alfabética. Por não publicado, aqui fica transcrito o seu texto, mas em grafia actual.

A colecção de livros pertencia aos Oratórios (Religiosos) do Colégio das Necessidades.

 

Texto da Memória

 

«Na Província de Entre Douro e Minho, Arcebispado de Braga, Comarca de Viana, Termo de Prado do qual é Senhor Donatário o Ilustríssimo e Excelentíssimo Marquêsde Minas, abrange dezoito freguesias e dois coutos, Azevedo e Manhente. No Vale de Tamel está situada a freguesia de Santa Maria de Galegos e no coração daquela a Igreja Matriz que é seu Orago a Senhora da Encarnação e tem três altares, um é o mor onde está colocado o Santíssimo e na parte da Epístola o senhor São José. Tem um colateral com o título de Senhora do Rosário da parte do Evangelho e outro da parte da Epístola com o título de S. Sebastião. Tem duas confrarias, uma do Santíssimo e outra da Senhora do Rosário. No centro da freguesia está a Igreja paroquial com includência de onze lugares com as titulações seguintes: S. João, da Igreja, Pena, Casa Nova, Souto de Oleiros, Portela, Casal do Monte, Outeiro, Fraião, Souto, Aldeia, Trás da Fonte, Revaldos, que bem contados fazem o número de treze. É padroeiro in solidum desta Abadia Pedro Lopes de Azevedo Pinheiro Pereira e Sá, e actual Senhor da Ilustre Casa de Azevedo e dos Coutos de Azevedo, Paradela e Rates. Tem de rendimento este benefício dois mil cruzados. Tem uma capela contígua à Igreja Matriz com o título de São João Batista a qual é administrada pelos devotos da freguesia e ornada. Tem capela de Santo Amaro com pouca distância da Matriz que é do Abade desta freguesia, que no dia quinze de Janeiro com munta gente, com várias esmolas para o Santo e para a sistência de sua festa. Os frutos desta freguesia no que mais abunda é o milho alvo e o senteio, dos mais têm suficiência. Não tem juiz ordinário nem Câmera por ser esta freguesia sujeita às justiças da Vila de Prado como referi ao princípio. Serve-se do correio da Vila de Barcelos que dista meia légua, e da cidade de Braga duas e de Lisboa sessenta. Tem cinco fontes subterrâneas e algumas de água excelente. Atravessa esta freguesia da parte do Norte a dilatada serra de Oliveira, estende um braço té o reino de Galiza outro da parte do Sul de té São Tiago de Vila Seca aproximando-se junto ao mar do castelo de Esposende. terá de comprimento té ao reino de Galiza doze léguas, de largura em partes meia légua, em partes mais de duas pouco mais ou menos. Para a parte de Esposende fará extensão de três léguas. Traz casa de perdizes, levres e coelhos, na parte que avezinha com esta freguesia. Tem sobreiros, castanheiros, carvalhos, nas fraldas pinheiros. Tem uma capela de S. Lourenço no ápice desta Serra que se festeja a dez de Agosto à qual concorre alguma gente de romaria. O temperamento é seco e quente. Pouca distância da capela mencionada estão pedaços de parede de altura de uma vara, em partes menos. O número de pessoas desta freguesia são duzentas e vinte e uma salvo erro. As paredes referidas são demonstrativo de que em outro tempo esteve na serra acima declarada Vila, ou castelo de Mouros porque consultadas as Crónicas do nosso Portugal se achava assaz povoado deles se o incto Rei, e sempre Augusto D. Afonso Henriques, subsidiado da mão divina os não desbaratasse fazendo-lhes porfiada guerra.

Consertada comigo por ser vizinho imediato.

O Abade de S. Veríssimo, Domingos Gomes de Araújo.

O Abade de Santa Maria de Galegos e sua Anexa de Salvador de Quirás,

Baltasar Ferreira da Silva.»

 

Galegos de 1758 a 1775

 

Sobre este período temos a informar-nos: as Visitações, o Livro de Defuntos e o dos Testamantos, donde se arrancam nomes nomes de párocos e curas, prazos, doações, percentagem de mortalidade infantil, expostos, apelidos e nomes usados, etc. Por partes:

1 - Óbitos anuais: média de 12 por ano entre 1772 e 1878 (107 anos, 1193 mortos). Destes 12, eram enjeitados 4, ou seja, 1/3 ou 33%, percentagem enorme.

2 - Nomes usados: João, Simeão, Fabião, Geraldo, Bernardino, Feliciano e Domingos são os mais frequentes. São bíblicos uns, romanos outros e até apareceu o do arcebispo de Braga vindo de França, S. Geraldo.

3 - Apelidos mais frequentes: Gomes, Gonçalves, Álvares, Andreza Coelho. Elas: Maria, mulher de; menores: faleceu João, filho de André Gonçalves (era o suficiente). Também alcunhas: faleceu Maria, vulgo, a Lomba, a Pata, etc. Macedo vem de Mazaedo, lugar de macieiras. Ver Inquirições da Ucha.

4 - Ordem do Rei, de 1773: que os estatutos das confrarias sejam vistos e aprovados (ou não) pelos Corregedoes. Lá foram os do Santíssimo ao Corregedor em Viana, que aprovou.

5 - Aparecem as primeiras referências de sujeitos de Galegos emigrados na América (E.U.A. e Brasil).

6 - Reforma da igreja (forma actual): inicou-se em 1766 e terminou em 1773. Ddve-se ao pulso forte do Visitador Xavier Rebelo (forte contra o abade reservatório Bento Azevedo Ataíde): acusa-o de o quere enganar com requerimentos; manda  (1763) ao cura fazer sequestro (reter em mão) as rendas do abade Bento. O abade (ou só cura?) Baltasar chama agora «igreja nova» à reformada, parece. Em 1773, tinham-se gasto, além do mais, 100 mil réis emprestados pelo procurador das obras e precisava-se de mais 200 mil. Disse o Visitador Pinheiro Leite: - nas Endoenças, a C. do Santíssimo poupou mais de 400 mil, em 7 anos que as não fez. Entre ela para o Igreja com 100 mil e a do Rosário com 50 mil (ver «A Voz do Minho» d 10/3/1973).

7 - Altares mais disputados para missas: Barcelos (Sª da Graça); Sé de Braga (S. Pedro de Rates); Galegos (altar do «Sacramento»); Areias (S. André); S. Martinho (Sª da Conceição). Ver a «Voz do Minho» de 27/1/1973.

8 - Morreu Teresa Domingues: confessa ter do Padre Manuel Gonçalves, de Roriz, uma filha, a única, e pede ao rei e ao Santo Padre Clemente XIII (Papa desde 1758-1769) que a declarem legitimada - para poder herdar da mãe.

 

De 1775 a 1820 (Revolução dos liberais)

 

Em Galegos:

1 - Reforma dos estatutos do Santíssimo em 1805: ninguém pagava as dívidas. Só agora foram aprovados por Braga, com oposição.

2 - O abade de Galegos, Pereira da Costa, fez-se sepultar como frade no Convento de S. Francisco em Barcelos (igreja do hospital), em 1808.

3 - Roriz, Quirás, Perelhal sofreram com os franceses; Galegos não parece, salvo alguns soldados: Manuel João, filho de Maria, solteira, José Luís Maciel e José Joaquim, soldados de linha e ainda Manuel Álvares, Leonardo J. Maciel e Agostimho Bispa, soldados «melicianos», mortos em 1811, sendo um em Coimbra e outro em Penela.

4 - Morre em Galegos - 1872 - um Padre Silva Vieira, de Aldeia.

5 - As pessoas eram sepultadas no Adro - ainda há pouco havia disso vestígios - em «um lansol»; passaram depois a ser sepultadas com hábitos de S. Francisco e de Stª Teresa.

Visita de 1794: refer-se que o sino não se ouve em todos os lugares da freguesia. Aconselha-se a torre nova já que o abade oferece por ela 50 mil réis. Por 1808, o abade oferecia 80 mil. Os Visitadores insistem. O abade era Pereira da Costa, que fez a adega paroquial e outras obras de vulto. O actuas sino grande é enorme. Modelo: o de Vilar.

 

Galegos de 1821 a 1900

 

1 - Ensinou a ler e escrever o celebrado Mestre da Quinta  da casa do falecido Anselmo de Vasconcelos. Tinha um método muito típico - antes, quase, de se falar em pedagogia - que incluía, como era moda do século, a «menina de cinco olhos». Falado o seu código disciplinar e penal: para quem andou à pedrada, se ferimentos houve mas sem sangue, doze palmatoadas, por exemplo. Isto era relatado pelo Sr. João Gonçalves de Sousa. Há um testamento de 1854 de um Joaquim José de Vasconcelos que refere um tio vigário (pároco).

2 - A Torre - deve ter sido feita por 1850. O falecido Eduardo Penicho, que morava em frente da igreja e teve duas filhas casadas para fora relatava que ainda ouvira falar da construção da torre: fez-se com pedra vinda da Pena Grande.

3 - Até 1855, Galegos pertenceu à Terra de Prado - não à de Neiva nem à de Barcelos.

 

Galegos desde 1900

 

1 - Estrada Aldeia - Portela (paralelipípedo): obra de uma junta de que fez parte o Anselmo. Data aí de 1940 o troço Portela - Santo Amaro.

2 - Salão Paroquial (antigo) - obra, não se sabe bem como, do falecido Domingos G. Salgueiro (da Pena).

3 - Reborido - Reboredo - de Roburetum (Carvalhal - lugar de «Carvalheiras»).

4 - Trás da Fonte: era do Couto de Manhente. Era lá uma vila Dóniga (de D. Ónega - nome visigodo que aparece no Liber Fidei - Livro de Provas - da Sé).

5 - Cruzeiro de S. João: tem a águia alemã, dos Azevedos, voltada a nascente.

6 - Devesa  (hoje Lamela): onde dantes se aprendia de noite a «jogar o pau» e onde, sem dar cavaco, e irritado, se intrometia o abade Moutinho, bom jogador, que punha logo as costelas de todos a arder. Da chegada dele até saírem, um a um, era um «ápide». Ainda do Moutinho. Deixou nome: com o galho comprava cortiça e para não abater peso, regavam-na; deu massa aos pedreiros que faziam a torre de S. Veríssimo; sabia obter luz eléctrica a partir da água do rio (no Pires); sabia de remédios; a um só casal - que se desavinha - casou-o 3 vezes!!! Até que lá sossegaram. Fez escavações no Facho, à procura, com uns de Galegos, de «porrões de ouro».